O ‘Jogo da Gratidão’, como ficou conhecido, foi ofuscado pela genialidade do Rei Pelé
ARQUIVO/ESTADÃO CONTEÚDO
Mané Garrincha em seu jogo de despedida, chamado de Jogo da Gratidão, no Maracanã
Era noite de um domingo qualquer de 1991 e eu estava assistindo à TV Gazeta. Terminou o “Mesa Redonda”, apresentado pelo saudoso Roberto Avallone, e a emissora paulista começou a exibir o videoteipe de um jogo antigo da seleção brasileira. Pela primeira vez, vi Garrincha em campo! Com a narração de Peirão de Castro, a Gazeta reexibiu o “jogo da gratidão”, partida organizada para arrecadar recursos a Mané, que enfrentava dificuldades financeiras. O Maracanã estava lotado (150 mil torcedores) naquele dia 19 de dezembro de 1973 para o jogo entre os campeões de 1970 e um combinado de estrangeiros.
Foi a última vez em que Pelé e Garrincha, dupla que encantou o mundo em 1958, atuaram juntos pelo Brasil e jamais perderam: 40 jogos, 36 vitórias e 4 empates. Aos 40 anos, Mané não estava bem fisicamente, mas fez boas jogadas pela ponta direita. Em um lance, passou a bola entre as pernas de um adversário. Aos 30 minutos do primeiro tempo, o árbitro Armando Marques interrompeu a partida para que Garrincha desse a volta olímpica: era a despedida oficial do “gênio das pernas tortas”, daquele que virou a “alegria do povo”. Mané jogou as chuteiras para os torcedores que estavam nas gerais do Maracanã.
A seleção brasileira, campeã de 1970, comandada por Zagallo, jogou com Félix (Leão); Carlos Alberto (Zé Maria), Brito (Luís Pereira), Piazza e Everaldo (Marinho Chagas); Clodoaldo (Zé Carlos) e Rivellino (Manfrini); Garrincha (Zequinha), Jairzinho (André), Pelé (Ademir da Guia) e Paulo Cézar Caju (Mário Sérgio). O Brasil saiu perdendo com gol do argentino Brindisi. Ainda no primeiro tempo, Pelé, que teve uma atuação espetacular naquela noite, empatou a partida. O Rei driblou dois adversários, invadiu a área e tocou na saída do goleiro argentino Andrada que, em 1969, tinha sofrido o milésimo gol dele, também no Maracanã.
Na etapa final, Luis Pereira virou o jogo e fechou o placar: 2 a 1. Cerca de 160 mil dólares foram arrecadados nas bilheterias e, com a quantia, Garrincha comprou imóveis para a família. No texto “Driblar, Eis o Mistério de Garrincha”, Armando Nogueira retrata com muita poesia o futebol do “gênio das pernas tortas”:
Driblar, tendo pernas tão tortas
e driblar como ninguém
eis um mistério de Garrincha que eu não ouso explicar…
Driblar, tendo uma perna mais curta que a outra
e driblar como ninguém
eis um mistério de Garrincha que tu não ousas explicar…
Driblar, tendo um desvio na espinha dorsal
e driblar como ninguém
eis um mistério de Garrincha que ele não ousa explicar…
Driblar, quase sempre para o mesmo lado,
repetindo o gesto mil vezes para mil vezes afirmar-se negando o próprio conceito de drible
eis um mistério de Garrincha que não ousais explicar…
Driblar
e driblar com tanta graça e naturalidade
eis um mistério de Garrincha que só Deus pode explicar.
*Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião da Jovem Pan.